
Ele, na casa dos 55, 56 anos; não tenho certeza. Eu, uns 11 ou 12. Era Dezembro, há poucos dias do Natal, dos finais dos anos 80. Homem ligeiro, buliçoso, olhar sabido, voz trabalhada no bem pedir e arrazoar. Almiro também era conhecido como “Bigode” (devem imaginar), ou simplesmente “Mirinho”. Um indivíduo do seu tempo, arguto, engenhoso e malandro. Arrumado no paletó de brim que ganhara do irmão, ficava quase bonito. Era meu pai. Nesta época do ano, ele ganhava algum dinheiro, presentes, brinquedos para minha irmã caçula, roupas para mim e minha mãe. Era o mês que eu detestava, não gostava de pedir, de andar tanto, de ficar até tarde sem almoçar. Ele ensaiava os detalhes comigo. Reclamava da minha desatenção nas instruções. Dizia para eu entrar nas lojas junto dele; se possível, segurando sua mão, e que confirmasse tudo que ele dissesse aos outros. Eu concordava. Era meu pai.
A noite de Natal era de sábado para domingo; ainda faltavam três dias. Na quarta, cedinho, Dona Ana me acordou. Meu pai, já arrumado. Para o café, o pão de sal de domingo, um tanto duro, um pouco de margarina, café preto. O Largo Dois de Julho ainda não tinha estas pistas de asfalto que tem hoje, as calçadas eram enfeitadas com bêbados, mendigos e prostitutas. A floricultura no centro era o que enfeitava a rua, era o contraste, o perfume. Perguntei “Por onde começaremos, meu pai?”. Almiro demora na resposta. Avenida Sete. “Depois, iremos para a Baixa dos Sapateiros e, à tarde, descemos para o Comercio, se você aguentar.” Meu pai não cansava. Homem resistente. Pernas finas e ligeiras, eu quase corria para alcançá-lo. Eu pensava em ter uma camisa nova para o Natal, e isso me motivava. Antes de sairmos, o famoso caderno de capa azul. Ele abriu na primeira página, escreveu “Os amigos de ‘Mirinho’ o saúdam, ao tempo em que se colocam como seus colaboradores para um Natal mais farto e feliz”. Lembro que foram semanas para meu pai chegar a essa frase. Ainda no caderno, no espaço reservado aos doadores, ele pediu para assinarmos quantias fictícias, como se o dinheiro já estivesse sido doado, a fim de impressionar. Homem matreiro, seu Almiro. O crachá de auxiliar de fiscalização do Estado da Bahia. Durante o ano inteiro esse crachá fazia sucesso nas operações de fiscalização. Me olhou ainda na porta de casa, meu cabelo se havia penteado (coisa que eu detestava), se o rosto e a roupa estavam limpos. Saímos, num dia de muito calor, gente, barulho ... Natal chegando.
Entramos na primeira loja, de tintas. Vendedor chamou logo o dono. Conheciam o modus operandi de seu Almiro. Um homem branco, alto e bastante simpático veio. “Bigode, meu irmão!”. Mandou o vendedor pegar uma nota de dez mil cruzados no caixa. Deu. Sorriu como quem diz “até mais, tenho o que fazer”. Apertam as mãos. Ainda na Avenida Sete, fomos em três lojas de sapatos, uma de roupas e numa galeria, onde novamente conseguimos doação, mais vinte, uh!! A Baixa dos Sapateiros era onde ficavam os comerciantes preferidos de meu pai, e os menos abastados também. Em uma das lojas, Armarinho Paes Andrade, meu pai chamou o gerente, chegou, caderno de capa azul em campo, outros dez mil. Eu ficava olhando seu Almiro, inquieto e atinado, desenrolado todo na lorota das muitas dificuldades que dizia enfrentar para cuidar dos seis filhos (ano passado eram sete, pensem!!), e das enfermidades da esposa, internada num hospital público. Se acreditavam, eu não sabia, mas sabia do receio que tinham de não serem suficientemente simpáticos com aquele homem do crachá. Chegamos ao Comercio, umas três da tarde. Entramos na lanchonete do senhor Arturzinho, velho conhecido de meu pai. Comida não era muito boa, também não pagávamos. Bigode ainda queixava uma assinatura. Seu Arturzinho trouxe uma tubaína Frilar e meu pai esqueceu o caderno azul.
Chegamos. O dinheiro da roupa estava garantido, a ceia de Natal, ainda não. Amanhã, iríamos nos mercadinhos e nas mercearias.
Dos meus 10 aos 13 anos, aqueles dezembros eram cansativos e detestáveis. Hoje, são memórias boas de quem já não está comigo, de quem tão rápido me deixou, sem a despedida adequada (existe?), sem o insubstituível abraço, sem as conversas carinhosas e reservadas, sem as caminhadas que hoje até sinto falta. Meu pai.
Francisco Gutemberg, ser humano, irmão, amigo, brincalhão, escritor, poeta, feliz, o que pensa por si mesmo, forte.





