
Cecília segurava a mão da mulher que a conduzia, paradas à frente daquela estranha casa, de cores chamativas, num amarelo forte das paredes e o azul gritante das janelas e portas, tendo ao alto a moldura de um céu baixo e cinza daquela quinta-feira. Poucas pessoas na rua, mais cachorros do que gente. A mulher chamava por alguém, num quase grito. Cecília trazia nos braços sua companheira inseparável, Aninha, sua boneca, sua filha e confidente, dos choros e das alegrias de criança.
Apesar do borralho, o dia corria claro, no suave frio de finais do outono. Aguardaram por um momento, até sair uma senhora de rosto redondo, de semblante duro que, em tom pouco amistoso, chamou-lhes. Entraram pelos fundos. Na porta da cozinha, os olhinhos de Cecília corriam tudo, a folhinha denunciava o mês de junho do ano de 1979; mal sabia Cecília que aquele seria o mês de uma mudança drástica e perversa na sua vida simples de menina interiorana.
As agruras que estavam reservadas àquela linda criança, no seu pouco mais que 6 anos de idade, a fariam fechar-se em ostra para o mundo, para os seres falantes, que até então ela identificava como "os mais velhos". – Ah, doce e meiga Cecília, quisera o tempo, ou destino tivessem optado por te oferecer uma outra estória, onde o aconchego dos braços maternos, os cuidados e zelo de mãe jamais lhe faltassem, ou a proteção e condução paterna te fossem como lei da qual não se pudesse escapar!
- Mas a vida é assim, Cecília! As borboletas se isolam, até que criem asas e descubram o voo e o fulgor da vida. Cecília demorou a aprender, teve de esperar a rotina do tempo. Então, bateu suas belas asas cintilantes, e não ousou mais fechá-las, que não fosse para descansar até o próximo voo que, a cada dia, tornava-se mas alto.
Vez ou outra, lembrava-se daquela quinta-feira, do abandono, do olhar trepido de quem lhe dizia ser sua mãe; lembrava da despedida, tão rápida quanto uma fuga; de sua mãe, retirando-se na vibração da estrada, sem olhos para trás, como quem desenha o próprio rumo, numa trajetória sem malas, sem sacolas, sem passado, sem peso... lembrava de sentir suas mãozinhas soltas e perdidas, buscando calor e segurança; lembrava do mirar sobre um vulto feminino já à distância, na poeira da estrada; lembrava do primeiro ácido a lhe escorrer dos olhos, queimando seu rosto e suas mãos.
E a borboleta se fez pássaro de ferro, em brilho e força e cores e mulher, e hoje viaja às terras longínquas dos sonhos boreais, a levar sua mensagem às pequenas "Cecílias aprisionadas". Entendeu que a ostra ou o casulo não podem significar o fim, mas o aperfeiçoamento de uma bela estória de entrega à vida, das tantas Cecilias, Marias, Anas, Franciscas ou Antonias, por aí!





