Geral Artigo

Luzes, câmera...silêncio?

Um relato de feminicídio, testemunhas frias e o custo do silêncio

24/08/2025 às 20h31
Por: Redação I Fonte: Fabiana Sena
Compartilhe:
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Não tenho o hábito de assistir àqueles programas televisivos que visam, primordialmente, à banalização da violência e à exploração da dor alheia. Entretanto, há notícias que permeiam os meios de comunicação e se estampam diante de todos nós, quer queiramos ou não. Foi assim que conheci sua história. Laina, vítima de feminicídio aos 37 anos, no município de Lauro de Freitas, entra para a estatística de mais uma vítima de feminicídio na Bahia. Infelizmente, nada novo em nosso cenário social: segundo dados oficiais, a cada 17 horas, uma mulher é morta em nosso Estado. No entanto, a morte dessa moça me tocou não apenas pela vítima ser mulher, mas também por me fazer refletir sobre aspectos da nossa natureza humana.

Laina não foi morta em secreto, no meio da madrugada, sem que ninguém pudesse ouvi-la. Mesmo estando em seu apartamento, em um condomínio, ela foi assassinada na varanda de seu lar, esperando que, ali, diante de todos, seus gritos fossem ouvidos e pudesse ser salva das agressões. Ela não se escondeu nem ocultou o que ocorria. Queria ajuda e gritou desesperadamente por ela. Aquela mulher foi morta com mais de trinta e oito golpes de martelo, na sacada de sua varanda, clamando por socorro.

Talvez a brutalidade com que a morte se deu seja o que choque a grande maioria. Mas há outro aspecto, talvez despercebido nesse cenário: o silêncio em contraste aos gritos. Chamou minha atenção o número de espectadores ali presentes, diante daquela varanda, observando a cena, alguns registrando de forma atroz, a morte em tempo real através do celular, produzindo a imagem que iria viralizar nas mídias. Uma mulher sendo morta a golpes de martelo diante de moradores que se tornaram meros espectadores de um crime bárbaro — que tirou a vida de uma mulher, de uma mãe. Era apenas ela, suas duas filhas e o agressor dentro daquele ambiente. E, para minha surpresa, foi uma de suas filhas, de apenas doze anos, quem teve coragem suficiente para se interpor aos golpes contra sua mãe, com o objetivo de poupá-la da morte. Uma menina tentando salvar uma mulher da brutalidade de um homem. Vejam o quanto estamos anestesiados e insensíveis diante da dor alheia

Uma cena tão dantesca que me fez lembrar do Coliseu romano, onde pessoas eram frequentemente executadas na arena como parte de um “espetáculo”. Aquele condomínio tornou-se um Coliseu contemporâneo, no qual a morte de Laina era o espetáculo, e as pessoas se extasiavam silenciosamente assistindo à sua execução. O espetáculo da barbárie levou à morte de mais uma jovem baiana, mãe de duas filhas, as quais presenciaram todo aquele cenário de horror.

Pergunto-me: o que será dessas meninas daqui para frente, sobrevivendo com a ausência da mãe, mas com a presença daquela cena na memória? O que será de nós, mulheres, se a cada fração de hora somos exterminadas diante dos olhares de toda a sociedade? Não sei o que pensar. Apenas consigo sentir, daqui, a dor dessa família que chora, vivendo o inesperado.

Não quero cair no discurso habitual que repousa em cobrar mais uma lei no Congresso, tampouco de pedir penas mais duras. Trata-se de refletir sobre a educação que temos perpetuado, há anos, em nossa sociedade — e que se reflete diretamente nos crimes relacionados ao gênero. Continuamos a alimentar a misoginia, a ideia da superioridade do homem, a dominação masculina dentro e fora do lar. E, enquanto negligenciarmos a educação de nossos filhos, independentemente do gênero, continuaremos sendo agredidas e mortas brutalmente, dia após dia, em todas as classes sociais.

Verdadeiramente, desejo que esse sentimento de indignação que trago comigo também esteja aí em você, pois prova que ainda não nos aclimatamos a essa realidade. Que possamos transformar essa tristeza e revolta em ações práticas no cotidiano, para que a história de Laina não venha a se apagar como tantas outras.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Francisco Gutemberg Há 6 meses Ipirá BahiaSinal dos tempos, minha caríssima colega! Sinal das nossas escolhas históricas equivocadas, sinal da nossa perigosa subordinação aos apelos da marisia intelectual que toma conta do homem moderno, enrijecido em sua pele a sensibilidade de perceber a quantas anda a dor e a solidão humanas! Obrigado pelo seu texto!
Mostrar mais comentários