
Os teus olhos caminhavam dissimuladamente pelos meus, enquanto Johnny Cash vinha de dentro da casa, sussurrando na antiga radiola, animando a festa noturna retrô. Em Arembepe, no sobrado de dois andares, todos os sorrisos convidados ou não eram candelabros acessos à alegria, na volúpia dos encontros. Amparei-me ao muro, observando-te, solitária sob a luz de dezembro no jardim. Ensaiei alguma frase de efeito, de saída, uma fuga terminativa qualquer, te dizer uma bobagem especial que te fizesse sorrir. Desisti! Aos demais da festa fui fingir um passeio ao salão, anfitrião, alguma singeleza distrativa e engraçada aos seus risos. Te vi sozinha, mais ainda. Todos riam no sobejo das taças de vinho, sem dar maior importância ao mundo que teimava em correr lá fora. Cada um dos meus diletos amigos, eu sei, carregando, sofregamente, uma bela e dolorosa estória, distinta de tudo, de enredos próprios, de cores frias, só suas, mais lágrimas que amores, como é a vida! Os seus castelos longínquos os aguardavam no retorno, depois da festa, nos seus solitários reinados, onde novamente disputariam a ilusão dos sonhos, lá, onde haviam deixado o cinza metálico da espada suicida, para essa noite atrasada, quando se despiriam de suas fantasias mais ternas, e pegariam suas enormes asas doiradas e seguiriam novamente até o céu, como quem volta e vai para sempre até ali, às esquinas estreladas de Órion, em brandas ruas deste fim de mundo.
Acabou Johnny Cash, agora, 3-11 Porter, e a palavra fim é assim, quase um não, quase um adeus, perto dali, e tão perto assim de mim, é quase um sim. Acho que Ricardo, o jovem namorado, bebeu um pouco mais. Aliel já escondeu seus olhos novamente, colocou sua fé sob os óculos escuros, ela agora cantarola alguma coisa daquela banda inglesa. Escutei quando Marta pediu para repetir o disco amarelo do REM. Ricardo calou-se, a música o fez lembrar de Ana, destas estórias que só contamos quando um pouco de álcool nos faz companhia, e estamos ao lado de algum grande amigo. Anjos se arremessando do belíssimo parapeito, calor de verão no calendário.
Subi ao primeiro andar. Renata já se despedia. Pedi que ficasse um pouco mais. _ Me ligue, então! O céu se pondo, e um outro já vindo. Da janela, uma noite ligeira e ébria, de quando se muda uma vez mais a vida, uma onda nunca se repete, nem nuvens, nem o verde dos olhos. Nenhum deles se conformava com o mundo lá fora, o mundo bem explicado no moderníssimo Manual do Homem Moderno, dos jornalistas ancoras da Globo, dos psicanalistas franceses, das lentes loucas dos óculos metaverso, dos grandes líderes de porra nenhuma. Mas os meus camaradas refutavam o recolhimento puro e simples, o devaneio frágil e coloquial dos vizinhos. Detestavam o mesmo lugar a se chegar. Os falsos braços abertos. A enfadonha mania de responder “Ta tudo bem!”.
O último a pegar as asas fui eu. Meio desacostumadas a mim, além de já parecerem velhas. Nunca gostei deste negócio de despedida, dá certo com o silencio e com o que pode ser o medo do fim. O sobrado se acinzentou na minha hora, ficou como se eu agora fosse o personagem a ser lido por algum voraz e inexperiente leitor que toma o livro de alguém, que acha tudo muito confuso na leitura, que tá nem aí pra este figurante. Não gosto de despedidas, por isso, na verdade, finjo que ainda não estou indo, e fico fazendo barulho por aqui, que é pra eu existir só mais um pouco.
Loo Ride chamou-me baixinho. Iria ficar tocando sozinho até furar. Segui até o telhado. Ao menos não será numa noite destas, feia. Tinha algo estampado para contar a alguém que se encontra depois daqueles vales, que há anos vive a minha espera. Lhe direi agora então dos tempos que percorri, e de tudo que julguei certo e justo até ali.
Ensaiei o vôo...





