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Tempo, tempo, tempo... Quando a pressa desacelera e o mundo cabe dentro de um canto de passarinho

Como descrever os significados do tempo, se não podemos tocá-lo? É indescritível, não palpável. Não há como mensurar algo que está além da nossa compreensão. O que podemos perceber é o agora, esse instante que se esvai e, ainda assim, nos transforma.

04/11/2025 às 10h15 Atualizada em 04/11/2025 às 10h34
Por: Redação I Fonte: Moni Praddo
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Foto: Reprodução
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Acordar pela manhã às seis horas, tomar banho, depois o café da manhã. E, quando olho para o relógio, já são sete e meia. Como o tempo voou! Precisei de um suspiro para administrar essa correria absurda e adaptar a mente a tamanha velocidade.

Quando chega o final da tarde, percebo que não dei conta de tudo o que deveria fazer no dia. Deixamos de perceber os detalhes incríveis que nos cercam, mas raramente nos permitimos parar para observá-los com atenção. Os detalhes simplórios são uma grande dádiva, você concorda?

Um dia desses, fui pausando meus passos dentro de casa antes de sair. E, de repente, aquele presente inesperado: um passarinho verde pousou no parapeito da janela do meu escritório. Ali, por alguns minutos, olhando para mim, quase me hipnotizando, senti a presença do amor e da confiança. E ele cantarolava alto, como se estivesse celebrando algo que eu não saberia descrever. Apenas me permiti estar naquele estado de congraçamento. Fiquei totalmente imersa nesse imaginário insólito, embriagada ouvindo aquele canto estridente, forte e, ao mesmo tempo, tão inofensivo. Apreciei esse belo momento, uma raridade.

Naquela manhã, assisti à cena e me debulhei em gratidão, porque o tempo, por um instante, parou. Aquela cena era tudo. Escutando, observando, armazenando no agora.

Como descrever os significados do tempo, se não podemos tocá-lo? É indescritível, não palpável. Não há como mensurar algo que está além da nossa compreensão. O que podemos perceber é o agora, esse instante que se esvai e, ainda assim, nos transforma. Mas tudo muda.
De que forma o tempo pode nos mudar?

Como disse o poeta Henry Van Dyke: "O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam...Mas, para os que amam, o tempo é eterno. 

Causa estranheza a velocidade com que o tempo passou após a pandemia. Nossa realidade mudou tão profundamente que nenhum bom tradutor seria capaz de decifrar tudo o que se transformou em nós.

Quando tentamos descrever o significado do tempo em nossa vida, percebemos que recorremos a palavras que medem algo que é, na verdade, relativo. O tempo escapa de qualquer definição exata. Não há como capturá-lo nem mesmo com uma câmera fotográfica, ele se dissolve entre um instante e outro, invisível, silencioso, indomável.

No livro O Pequeno Príncipe, ele pontua sobre o tempo, a singeleza, o acolhimento e a não pressa. O Pequeno Príncipe aprendeu com sua rosa que o tempo que dedicamos a algo é o que o torna importante. “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”, diz a raposa — uma das frases mais simples e mais profundas já escritas sobre o amor. 

É o oposto da pressa que move o mundo. Enquanto o Chapeleiro Maluco no filme Alice no País das Maravilhas, num breve diálogo, ele explica que vive aprisionado em uma hora eterna. Na ânsia de controlar cada minuto, de encaixar tudo em agendas e cronogramas, acabamos como o Chapeleiro, presos na mesma hora, repetindo gestos automáticos, sem perceber o sabor do chá.

Durante séculos, a humanidade se esforçou para divisar e marcar o tempo em ciclos intermináveis. Observamos os movimentos circulares da natureza (estações, marés) em relação ao tempo linear humano (começo, meio e fim), os eclipses, o nascer e o pôr do sol, tentando compreender esse fluxo que nos atravessa e nunca se repete do mesmo modo.

Há também o tempo que habita o corpo da mulher, um tempo biológico, emocional, misterioso, que a conecta aos mesmos ritmos da Lua. O tempo mexe, transforma, amadurece, faz nascer e florescer.

Mas será que o tempo é algo em si? Ele existe sem a nossa presença? Ou será que é a nossa consciência que o cria, que lhe dá significado e forma?

Talvez o tempo seja apenas o espelho onde refletimos o movimento da alma. E, quem sabe, a luz dessa explicação esteja exatamente na fronteira entre nós e o desconhecido, nesse instante invisível onde a vida acontece e o tempo, por um breve segundo, parece parar.

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