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Entre Partidas e Chegadas: as Memórias que Moram na Antiga Rodoviária de Salvador

“A rodoviária de Salvador marcou muitas histórias de vida e, comigo, não foi diferente. Entre idas e vindas, foi por meio dela que cheguei pela primeira vez à capital com minha mãe, ainda na infância, aos dois anos de idade”

21/01/2026 às 19h31
Por: Redação I Fonte: Mateus Mozart Dórea
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Foto: Ulgo Oliveira/Seinfra
Foto: Ulgo Oliveira/Seinfra

Lembro-me muito bem das minhas primeiras viagens para Salvador, desembarcando na rodoviária do Iguatemi. Era uma verdadeira aventura, pois saímos de Itanagra às cinco da manhã e só chegávamos à capital por volta das oito ou nove horas. Diferentemente de muitos interiores, Itanagra enfrentava ainda mais dificuldades, por não dispor de estrada asfaltada que ligasse diretamente às rodovias BA-099 ou BA-093, as mais próximas que conduzem à capital soteropolitana. Ao mesmo tempo em que vivíamos essas limitações, éramos ousados. Recordo-me de uma conversa de outrora com meu professor de História e filho da minha cidade, Quintino, que sempre dizia o quanto éramos ousados: mesmo diante de tantas dificuldades, tínhamos acesso diário à capital por meio de uma linha direta.

A rodoviária de Salvador marcou muitas histórias de vida e, comigo, não foi diferente. Entre idas e vindas, foi por meio dela que cheguei pela primeira vez à capital com minha mãe, ainda na infância, aos dois anos de idade. Lembro-me vividamente de que o melhor momento para vir era durante os festejos juninos e natalinos — uma verdadeira festa! Para quem vive no interior, acessar uma metrópole é como adentrar um universo estelar de encantos e júbilos. Foi também por essa mesma rodoviária que fiz minha primeira viagem sozinho. O medo de que o “Juizado de Menor” me pegasse era uma máxima de minha mãe; por isso, ficava a cargo do motorista me trazer e me levar — que responsabilidade! Foi por meio dela que muitos itanagrenses tiveram acesso a médicos, remédios, favores, caronas, curas, encontros e despedidas. Rodoviários tornaram-se políticos, passageiros tornaram-se amigos, e amigos, companheiros para toda a vida.

Foi ainda por meio da rodoviária de Salvador que, em oito de fevereiro de dois mil e quatorze, cheguei de vez para fazer morada. Franzino e carregando o sonho de ser padre, fui acolhido, abraçado e adotado por uma cidade que, em seu cotidiano, luta com resistência e bravura para mostrar o quanto faz jus ao título de primaz do Brasil. Com ela, também fiz minha primeira viagem mais longa pelo interior da Bahia, conhecendo Seabra e Boquira. Foi por meio dela, ainda, que meu saudoso tio Luiz, viajando para Itanagra, ao invés de apresentar o cartão de embarque, entregou o cartão do banco de minha avó — arrancando risos de todos nós. Quantas histórias!

Por fim, a Bahia ganha uma nova rodoviária soteropolitana, fazendo nascer novos episódios e dando continuidade a tantos encontros e despedidas. A estrutura, que mais se assemelha a um shopping center, traz dignidade, alívio ao trânsito antes concentrado na região central onde se encontrava e mais oportunidades para todos aqueles que fazem da viagem um marco de vida, de mudança e de história.

Por Mateus Mozart Dórea

Advogado, formado pela Universidade Católica do Salvador; pós-graduado em Direito de Família e Sucessões; professor de Legislação nas instituições Grau Técnico de Ensino, Sete Cursos e ProCursos. Autor do melhor artigo científico nos anos de 2024 e 2025 na SEMOC da Universidade Católica do Salvador.

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QUINTINO ALVES DE SANTANA NETOHá 2 semanas ItanagraDe fato meu amigo e orgulho de Itanagra, mesmo com as dificuldades de acesso, nunca deixamos de ter acesso ao Jornal A Tarde e Correio da Bahia, por intermédio do saudoso Antônio Guarda e os motoristas da Catuense, estávamos antenados diariamente com as novidades da capital e isso nos ajudou a termos independência e opinião própria. Eu sou suspeito de sentir nostalgia da famosa e boa Rodoviária de Salvador. Parabéns pelo texto.
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